
Olhei para aquela foto guardada no fundo de uma gaveta, e uma lágrima, mais de raiva do que saudade, escorreu pelo meu rosto. Aquele foi o último verão que passamos apenas nós duas. Na época tudo para mim pareceu tão intenso, tão feliz, tão verdadeiro, mas depois de certos acontecimentos, comecei a desconfiar disso tudo. Lembro-me de ter me divertido muito, como jamais fizera antes. Saímos todos os dias, tiramos mais fotos do que os dedos podem contar. Aquela foto, eu e ela brincando no parquinho, tinha dado um trabalho excepcional, mas seu resultado foi mais que gratificante. Foi a única foto que revelamos, e cada uma tinha uma cópia.
O ano letivo começou alguns dias depois de voltarmos de viagem, e não tinhamos grandes expectativas a respeito dele. Seríamos apenas nós duas, como tinha sido o resto de nossa vida, seríamos amigas para sempre e nenhum garoto iria se colocar entre nós.
Como eu estava enganada.
Tudo começou como uma coisa inocente. Chegamos na sala, sentamos uma do lado da outra como sempre fazíamos e começamos a conversar sobre coisas aleatórias, um desses assuntos que vem do nada e que apenas melhores amigas sabem conversar. Era incrível, o assunto nunca acabava. Podíamos passar o resto da vida conversando, que nunca não teríamos o que falar.
Não me lembro direito do assunto que falávamos, alguma coisa sobre pudins de canela, quando ele sentou na nossa frente. Percebi o rosto dela se iluminar do nada quando o viu. Não era feio, mas também não era dono de uma beleza escultural. Já estava planejando incentivá-la, sabendo que jamais me colocaria entre os dois. Sempre enganada, sempre enganada...
Aquilo tudo começou como uma amizade inocente. Conversamos nós três por alguns dias, a personalidade dele combinava exatamente com a nossa, tínhamos formado um trio imbatível. Nós três, nada poderia nos separar, eramos unidos por uma amizade inigualável. Não achei que nada pudesse nos separar.
Um ano havia se passado assim. Já haviamos esquecido o verão anterior, as fotos, as juras de amizade eterna. Uma certa irritação vinha me apoderando em relação a ela. Os dois pareciam ter uma amizade tão incrível, mais verdadeira... Eu parecia apenas um acessório para os dois. Um complemento. Isso me irritava. E começou a me irritar mais ainda quando eu vi que ele era sim dono de uma beleza escultural. Demorei quase um ano para perceber, mas, quando vi, não tinha mais como sair daquele abismo no qual tinha me metido. Era um caminho sem volta. E eu não sabia até onde eu seria capaz de ir para tê-lo.
Naturalmente ela veio me confessar estar apaixonada por ele, alguns dias depois de eu ter percebido isso. Não incentivei, ralhei com ela, disse que a amizade era mais importante. Conselhos que eu queria que alguém tivesse dado a mim. Ela achou que eu estivesse certa, e parou com isso, de alguma forma que eu julgava impossível.
A cada dia eu me afundava mais. A cada dia a amizade deles parecia melhor do que a minha. A cada dia eu me via mais desesperada e tomada pelo ciúme.
Eles construíram um mundinho para eles dois, um mundinho no qual eu não poderia entrar. Então eu deveria ficar ali, do lado de fora, chorando enquanto os via se divertirem em seu quintal. Não aguentava mais aquilo. Era quase como se eu não existisse.
Então eu fiz uma coisa burra e egoísta, digna de uma pessoa burra e egoísta.
Eu fui falar com eles.
Mas eles estavam certos, não havia nada demais acontecendo entre eles. Era amizade, pura e simples, da qual eu podia ter participado, se não tivesse me impedido o tempo todo . O tempo todo achando que era indesejada, que não importava, que era apenas um acessório.
Se eu não tivesse passado o tempo todo pensando em como tudo estava ruim, quando tudo não estava de fato, talvez eu não tivesse aqui olhando para uma foto velha, e sim estivesse lá fora, em algum lugar, conversando e me divertindo com eles. Dói tanto ver que a última vez que falei com eles foi uma briga. Dói mais ainda ver que nunca mais me divertirei nas tardes frias com aqueles dois, os dois amigos que eu mais amei na vida.
Pauta pro Palavras Mil. Talvez seja a minha irritação por algum motivo inexistente, ou uma revolta interna por coisas pequenas, mas o post ficou mais verossímil do que eu desejava. Ótimo, de qualquer maneira, nem tudo é verdade. A maioria é tudo invenção da minha cabeça. E eu não sou tão estúpida assim.
Amanhã eu vou ficar o dia todo na escola, então vou programar o blog pra postar uma coisa, depois, na quinta, eu respondo os comentários, ok?
CHEEESES ;*
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